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Jornal da Tarde
12/11/2004

Pirata adaptou o surfe para o seu prazer



Alcino Neto conseguiu uma técnica para surfar ondas grandes e perigosas somente com uma perna
Comentário SACI:
Ter perdido a perna aos 16 anos não foi obstáculo para Alcino Neto - hoje com 33 - se equilibrar nas pranchas e desenvolver um método de pegar ondas que ele mostra pelo mundo, além de dar aulas no Guarujá, onde mora. Seu sonho agora é ir à Olimpíada de 2004, mas como participante de provas de vela


"O impossível está na mente dos acomodados." É o que costuma repetir aos mais jovens o surfista Alcino Neto, de 33 anos, mais conhecido como Pirata. Alcino enfrentou muitas dificuldades, como a perda da família e da perna esquerda. Mas encontrou coragem no surfe e hoje ensina o esporte em uma escola da modalidade, no Guarujá, cidade onde nasceu. Ele pratica o que chama de surfe adaptado.

Pirata serve de exemplo para novos praticantes do esporte - deficientes ou não. Ter perdido uma perna aos 16 anos, em um grave acidente - sua moto foi atingida por um carro em contramão, quando passava férias em Minas Gerais -, não foi obstáculo para enfrentar as ondas.

Ele começou a praticar o esporte aos oito anos. Oito anos depois, ao perder a perna, era pobre, não tinha dinheiro para comprar uma prótese. Andar a cavalo em Minas Gerais ajudou a voltar a ter equilíbrio. "Foi muito importante", diz. Em seguida, descobriu a natação.

Foi quando começou a sonhar com a volta ao surfe, mesmo não tendo noção de como se sairia no esporte. Pirata, que nessa época residia em São Lourenço, retornou ao Guarujá e retomou os treinamentos. "Até que na primeira onda já me equilibrei, consegui um estilo próprio. Usava uma mão no meio da prancha, a outra na borda e o pé atrás, mas conseguia me levantar e me equilibrar", explica Alcino Neto.

Hoje ele é um profissional. "O surfe é uma paixão. Quando você começa não consegue mais parar. Quando era pequeno já sabia que podia ser um profissional, só que foi diferente. Sou profissional com uma perna só."

Pirata ficou muito tempo praticando o surfe sem a prótese. E conseguiu uma maneira, uma técnica para surfar ondas grandes e perigosas somente com uma perna. Hoje Alcino Neto também utiliza uma prótese à prova dágua, feita de plástico e anticorrosiva para não estragar na água salgada. "Surfo com essa prótese, mas em ondas pequenas e com longboard. Ainda estou em treinamento e me adaptando para ver qual a melhor altura e o movimento adequado que preciso fazer com o joelho. Um dia ainda estarei pegando ondas das duas maneiras, mas por enquanto vou sem prótese", diz.


Tudo com muita luta

Tudo que ele conseguiu foi com muita luta. Com três anos, perdeu a mãe. Passou a ser criado pela avó, que também veio a falecer logo depois.

Foi morar com o avô, que logo também morreu. Foi obrigado a ficar dois anos longe das pranchas de surfe em Minas Gerais. Nesse período o pai faleceu.

Mesmo depois de perder a família, Pirata persistiu, procurando o lado positivo das coisas. "Acho que nunca teve nada de ruim, assim, para falar que as coisas foram ruins. Tudo teve seu tempo certo. O que passei até melhorou o meu modo de viver. Quando você é criança não têm sonho nenhum.

Depois que você passa por uma modificação grande na vida, começa a procurar um ideal, alguma coisa para seguir. No meu caso foi o esporte", ressalta o surfista.

Alcino mostra para os outros surfistas - e principalmente para iniciantes e deficientes - que é possível qualquer pessoa pegar onda. Pirata foi pioneiro no surfe para deficientes e ficou famoso. Já divulgou sua forma de surfar no Havaí, na Austrália, na Indonésia, na Califórnia, no México e no Peru.

"Quando viajo as pessoas ficam curiosas, querem ver como é que um cara surfa com uma perna só". O surfista afirma que "esse interesse facilita a divulgação do surfe adaptado".

Alcino tem a ajuda de patrocinadores como a Hang Loose, PirataSurf, Tahiti e da Associação Desportiva do Deficiente (ADD).

Conseguiu inscrever o surfe como esporte paraolímpico no Brasil. "Mas na verdade não é olímpico e nem paraolímpico. É um esporte adaptado e que precisa ser divulgado. Isso já é um grande passo", afirma. Pirata se entusiasmou e hoje, além do surfe, pratica a vela, esporte no qual espera conseguir patrocinador para representar o Brasil na Olimpíada de 2004, na Grécia. "Seria velar, levar o surfe adaptado participando de uma competição de vela na Olimpíada. Mostrar o surfe paraolímpico, surfe adaptado, mas começando pela vela", diz, sobre o projeto.


Trabalho de 18 anos

Há 18 anos Pirata divulga o surfe adaptado. Segundo ele, o Brasil é o País com maior número de deficientes físicos praticando a modalidade.

"Nunca me peguei assim pensando, acabou a minha vida e agora o que vou fazer? Sempre procurei estar envolvido em algum esporte. O impossível não existe, ele está na sua frente e você tem de correr atrás. O importante é levar a vida e o esporte sempre para frente, em alto astral. Nunca deixando ficar abatido por nada", diz Pirata.


Guarujá, 10 de setembro de 2010

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